Polícia investiga uso de IA para criar e vender nudes falsos de adolescentes em escola de MS

  • 28/02/2026
(Foto: Reprodução)
Imagens manipuladas por IA: adolescentes são vítimas em escolas de Campo Grande A Polícia Civil investiga casos de deepfake envolvendo adolescentes em uma escola particular de Campo Grande. Segundo a denúncia de uma das vítimas, ouvida pelo g1, colegas são suspeitos de terem usado inteligência artificial (IA) para criar nudes falsos de alunas e vender as imagens manipuladas em grupos de mensagens. Veja o vídeo acima. Pelo menos cinco meninas teriam sido vítimas. Acompanhada da mãe, uma das adolescentes relatou ao g1 como descobriu a montagem feita por deepfake e os traumas após ver o rosto em um nude falso. As identidades da mãe e da menina foram preservadas. "As montagens foram feitas por três colegas de turma. No momento que eu fiquei sabendo, na verdade eu senti muita raiva. Tem vezes que eu acordo e não lembro muito, tento esquecer. Só que tem vezes que eu me olho no espelho e eu me sinto suja. Eu sei que o corpo nas fotos não era meu, mas o rosto era", disse a menina. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp O caso é investigado pela Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e Juventude (Deaji). Conforme o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), o ato infracional apurado é tipificado como "participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual". 🔎Menores respondem criminalmente? - O ECA estabelece que menores de 18 anos são penalmente inimputáveis, ou seja, não podem responder por crimes com base no Código Penal. Nesses casos, quando cometem uma conduta prevista como contravenção, o ato é classificado como ato infracional. Em vez de penas, como ocorre com adultos, crianças e adolescentes estão sujeitos a medidas socioeducativas previstas na própria legislação. 🔎 🔎 Afinal, o que é Deepfake? - É uma técnica que permite alterar um vídeo ou foto com ajuda de inteligência artificial (IA). Com ele, por exemplo, o rosto da pessoa que está em cena pode ser trocado pelo de outra; ou aquilo que a pessoa fala pode ser modificado. Vítimas tiveram fotos manipuladas espalhadas por grupos Menina, de 15 anos, foi vítima em Campo Grande. TV Morena/Reprodução Conforme a denúncia da mãe da adolescente, ao menos cinco meninas foram vítimas da adulteração das imagens. Todas tiveram fotos manipuladas e vendidas por cerca de R$ 50 em grupos de mensagens. “Uma amiga minha, que também sofreu isso, recebeu um áudio dizendo que esse menino tinha pegado foto nossa, colocado na Inteligência Artificial, tirado nossa roupa, e ele tinha feito um grupo com mais dois amigos e estava divulgando essas fotos lá", contou a adolescente de 15 anos. A adolescente conta que procurou o menino suspeito, que confessou a manipulação das imagens. "No momento em que eu fiquei sabendo senti muita, muita raiva. Só que na hora que eu desci para confrontar ele parecia que eu tinha perdido o chão. Conversei com ele, perguntei o porque tinha feito isso, ele não soube dar uma resposta", conta chorando. A mãe relata que, ao descobrir o caso, buscou a filha na escola e procurou a polícia. “Quando eu cheguei na escola, um desses meninos estava conversando com a minha filha e assumiu que havia pegado fotos dela, colocado na inteligência artificial e manipulado as imagens. A primeira reação foi ir para a delegacia. Isso é um crime e precisa ser investigado”, contou a mãe da menina. O g1 questionou as secretarias Municipal e Estadual de Educação e o sindicato que representa as escolas particulares para saber quais medidas são adotadas quando há envolvimento de estudantes nestes tipos de crime. Também questionamos se existe protocolo específico para prevenção e enfrentamento desse tipo de crime e quais ações educativas são desenvolvidas sobre o uso responsável da internet e da inteligência artificial. Até a última atualização desta reportagem, não houve retorno. Polícia investiga deepfake O caso é investigado pela delegada titular da Deaji, Daniella Kades. Ela explicou que a prática é considerada grave. "Quando há montagem ou transformação de vídeos através da inteligência artificial, que agora é uma coisa corriqueira, que está começando a aparecer muito na delegacia, nós temos um crime ou um ato infracional. No caso disso ocorrer no âmbito escolar, com a exposição contínua e repetitiva desse menor, nós teremos um crime, que é o 241C do ECA, com pena até 3 anos", esclarece. No caso de Campo Grande, além da manipulação, as imagens falsas também foram comercializadas. "O Estatuto já prevê que será responsabilizado quem realizou a adulteração da fotografia ou da montagem, quem divulgou, quem expôs à venda, quem disponibilizou ou simplesmente armazenou. Todos os estudantes que participaram dessa cadeia, desde a montagem da fotografia, do armazenamento, da distribuição ou da venda, ou até mesmo quem comprou, porventura, uma fotografia modificada, respondem pelo mesmo ato infracional", explica a delegada. A delegada informou que já oficiou a escola para identificar e qualificar os alunos envolvidos e que agora vai reunir todo o material coletado para dar andamento à investigação. Kades afirmou ainda que este é o terceiro caso de modificação de fotografia com uso de inteligência artificial registrado em ambiente escolar, mesmo com o ano letivo recém-iniciado. Orientações aos pais nestes tipos de caso A orientação é que pais ou responsáveis façam capturas de tela, salvem as mensagens e procurem a delegacia ao identificar que os filhos foram vítimas de atos pela internet. Segundo a delegada, o material é essencial como prova, já que os envolvidos podem se desfazer dos celulares e nem tudo fica salvo na nuvem. “Deixo aqui o meu apelo, para que todas as mães que as filhas foram vítimas desses três meninos, que procurem a delegacia, que registrem o boletim de ocorrência para que todas as medidas necessárias sejam tomadas”, diz a mãe da adolescente. A mãe diz que a família vive um antes e depois do crime "Eu nunca imaginei que isso fosse acontecer com a minha filha. O celular dela é monitorado, eu tenho a senha, olho tudo em que ela entra, vejo com quem ela conversa. Sempre tive essa preocupação, mas nunca passou pela minha cabeça que alguém teria a capacidade de pegar uma foto da minha filha, alterar e vender. Comercializar como se ela estivesse nua”, lamentou. O choque da mãe foi ainda maior quando foi informada que os adolescentes chegaram a cobrar pelas imagens falsas. “Foi criado um grupo com três meninos, e eles cobravam, começaram a oferecer na escola, provavelmente eles deveriam falar o conteúdo do grupo e cobravam R$ 50 para quem quisesse ver a foto das meninas, que não foi só a minha filha, teve outras vítimas desse trio”, contou. Rede de apoio “Sem todo esse apoio que tenho recebido, estaria sendo muito pior. A minha mãe tem me ajudado bastante, minha psicóloga, minha família toda. Meus amigos também", afirma a adolescente. A jovem faz acompanhamento psicológico e afirma que ainda enfrenta dias difíceis. “Tem vezes que eu acordo e tento esquecer. Só que tem vezes que eu me olho no espelho e me sinto suja. Sei que o corpo nas fotos não era meu, mas o rosto era. E eu me sinto invadida”. Para a mãe, não saber o nível que as fotos podem ter chegados é uma preocupação. "Eu sei o peso que isso pode causar na vida de uma adolescente. A minha filha, graças a Deus, tem uma rede de apoio, ela tem tratamento psicológico e psiquiátrico". Psicóloga alerta para gatilho emocional A psicóloga Luana Silva explica que os crimes em ambientes escolares não podem ser tratados como brincadeira, sobretudo na adolescência, fase marcada por mudanças emocionais. “Quando isso acontece na adolescência isso é ainda muito pior, porque pode gerar um grande isolamento social, fazer com que aquela pessoa até mesmo se sinta culpada por aquela atitude provocada por outros". Atenção dos pais O advogado Raphael Chaia reforça que a participação ativa dos pais na rotina digital dos filhos ajuda a prevenir casos de bullying online. “Saiba quais sites seus filhos acessam, saibam com quem eles conversam, que jogos eles frequentam para que vocês possam ter segurança e a tranquilidade de que eles não estão perpetrando uma prática tão abusiva quando a do bullying”. Para a adolescente ouvida pelo g1, o que aconteceu com ela precisa ser tratado como crime e não como brincadeira. Ela afirma que muitos jovens passam grande parte do tempo na internet e que é necessário mais conscientização e responsabilidade para evitar esse tipo de violência. "A minha geração agora é uma geração que tá muito dentro da internet e a gente precisa ter limites com isso. O que aconteceu comigo, e que eu tenho certeza que aconteceu com muitas outras meninas, é um crime. A gente não pode deixar isso ser levado como uma brincadeira, porque é sério. Isso causa danos físicos, pode acontecer, e mentalmente com certeza. A gente tem que correr atrás da justiça". Em fóruns online, há pessoas que fazem encomendas de 'deepfakes' usando imagens de familiares e conhecidas. Getty Images via BBC Veja vídeos de Mato Grosso do Sul

FONTE: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/02/28/policia-investiga-uso-de-ia-para-criar-e-vender-nudes-falsos-de-adolescentes-em-escola-de-ms.ghtml


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